domingo, 5 de setembro de 2010

Estrutura dos Lusíadas por Salvatore D`Onofrio

A POESIA ÉPICA NA RENASCENÇA

Salvatore D'Onofrio

I - Antecedentes literários e culturais


          A Idade Média nos legou dois filões principais de literatura narrativa. O ciclo bretão, centrado nas aventuras do herói lendário da Grã-Bretanha, o rei Artur, que teria introduzido o Cristianismo na Inglaterra e, com seus "Cavaleiros da Távola Redonda", teria dominado os anglos do Norte e os saxões do Oeste, no fim do séc.V. Neste ciclo narrativo, redigido em prosa, distinguimos duas vertentes romanescas: uma, de influência religiosa, tem como fulcro a Demanda do Santo Graal, cujos heróis, Galaaz, Parsifal e Boors, encarnam o idealismo cavaleiresco, que se revela na defesa da fé cristã e na busca da graça divina; outra, de espírito cortesão, exalta a sensualidade amorosa e a paixão adulterina: Amadis de Gaula e as aventuras de Tristão e Isolda, Lançarote e Genebra, Flores e Brancaflor.
          Outro filão narrativo, o ciclo carolíngio, redigido em versos e de origem mais popular, é constituído pelas canções de gesta, cantos épicos e heróicos, centrados nas aventuras militares de Carlos Magno e dos Paladinos de França, que se deram na segunda metade do séc. VIII. Já vimos que episódios deste ciclo, mitificados e adaptados à nova realidade histórica, foram retomados no início do séc. XII, dando origem a epopéia francesa e servindo como modelos para o surgimento das epopéias de outras nacionalidades européias.
          Com o Humanismo e a Renascença, a partir do séc. XIV, junto com a descoberta e a valorização da cultura e da civilização greco-romanas, é reativado também o filão da poesia épica medieval, especialmente no tocante ao espírito da Cavalaria. A Itália renascentista cultiva abundantemente a memória coletiva do herói histórico-mítico Roland, que se torna o protagonista de vários poemas épico-cavaleirescas. Mudando, por eufonia, o nome de Roland para "Orlando" e misturando as aventuras guerreiras, próprias do ciclo carolíngio, com as aventuras amorosas, extraídas do ciclo bretão, os renascentistas italianos criam uma personagem, ao mesmo tempo, valorosa na guerra e apaixonada no amor.
          Luigi Pulci, inspirando-se no poema anônimo popular Orlando, cria o seu Morgante (1483), poema cavaleiresco que trata das aventuras militares e da morte do grande herói mítico francês. O tema é retomado por Matteo Maria Boiardo no seu Orlando Enamorado, obra inacabada pela morte do poeta (1494). Mas o poema que mais artisticamente trata do assunto é o Orlando Furioso (1516), de Ludovico Ariosto. O poeta italiano pretende continuar a obra inacabada pelo Boiardo, começando a história de onde este tinha terminado. Ele se inspira não só na tradição bretã e carolíngia, mas também na poesia épica greco-romana. O pretexto histórico é a descrição da luta entre muçulmanos e cristãos pela posse da cidade de Paris, mas o núcleo da narrativa é o amor de Orlando por Angélica. Este amor chega primeiramente à paixão e depois leva o protagonista à loucura, quando descobre que sua amada se casa com Medoro. Nesta aventura principal encaixam-se várias outras histórias de amor, passionais e infelizes, em que se exalta o idealismo cavaleiresco, retratado especialmente na fidelidade ao sentimento amoroso.
          Outro poema épico-cavaleiresco italiano é a Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, que tem como fundo histórico a primeira Cruzada dos cristãos para a libertação da Cidade Santa do domínio dos infiéis, no fim do séc. XI. Mas a guerra entre cristãos e muçulmanos é apenas um pretexto para o poeta cantar os amores aventurosos das duplas Rinaldo-Armida e Tancredi-Clorinda. Esta obra, terminada em 1575, já na época do Barroco italiano, espelha o clima austero da Contra- Reforma. O poeta, de constituição doentia e de sensibilidade melancólica, exprime artisticamente o contraste entre a força da paixão amorosa e o medo do pecado.
          A nosso ver, o poema épico que melhor expressa os ideais da Renascença é Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, a que dedicamos um estudo mais detalhado. O Renascimento, movimento de aspecto multiforme, pois renova não somente os estudos humanísticos, mas também as artes plásticas, o pensamento filosófico, as ciências físicas e as técnicas industriais, tem como fundamento político-social a passagem das estruturas agrárias da sociedade medieval para o desenvolvimento industrial e o capitalismo mercantil. A substituição do sistema feudal pelas "comunas", cidades com administração autônoma; o enriquecimento das cidades portuais da Itália (Veneza, Pisa, Gênova, Amalfi) através do comércio com o Império Bizantino e com o Ocidente; o surgimento da burguesia, provocado pelo progresso da indústria e das atividades comerciais; a criação das primeiras universidades européias (Bolonha e Paris); as Cruzadas, que arrebataram o domínio do Mediterrâneo aos muçulmanos; todos estes fatores criaram, paulatinamente, uma nova cosmovisão, substituindo o teocentrismo pelo antropocentrismo. O homem começa a sentir novamente o prazer de viver e a procurar a felicidade nesta terra, sem se preocupar com o além-túmulo. Daí a volta aos ideais de vida cultivados pela Antigüidade greco-romana, anterior ao surgimento do Cristianismo. As obras literárias da civilização clássica são procuradas, tiradas do oblívio, estudadas e imitadas, pois consideradas modelos de perfeição artística e de ideal humano.
          O poema camoniano reflete os dois postulados principais da cultura renascentista: a imitação dos modelos artísticos da Antigüidade greco-romana e a exaltação do homem na sua conquista de novos caminhos marítimos, com vistas a ampliar suas atividades comerciais.

II - A estrutura d'Os Lusíadas


II.1 - Plano da enunciação

          O estudo do problema do “narrador”, no poema camoniano, é complexo, pois nos deparamos com várias focalizações, sendo os fatos apresentados através de pontos de vista diferentes. Podemos distinguir três “visões” principais, cada qual dependendo de um diverso sujeito de enunciação:

II. 1. 1 - O ponto de vista da eu poemático

          Devido aos marcantes traços autobiográficos, somos tentados a confundir o “eu” que fala em primeira pessoa com o próprio Camões, embora não haja identidade entre o narrador do poema e o autor da obra. Este ponto de vista sugere a participação subjetiva do poeta no complexo dos fatos narrados, denunciando as intenções que o levaram à composição do poema. Toda vez que o poeta, deixando-se levar pela emotividade, quer participar ativamente dos fatos que está narrando, lança mão do discurso em primeira pessoa e, através de sua “voz”, interpreta os acontecimentos, emite julgamento de valores, adverte seus contemporâneos.
          Notamos, todavia, que a participação do poeta na obra não se dá apenas pelo recurso estilístico da fala em primeira pessoa. Mesmo quando os fatos são narrados em terceira pessoa, o eu poemático pode se fazer presente através dos vários elementos que compõem o aparelho formal da enunciação: o uso dos demonstrativos, que acusam a proximidade com quem fala, dos qualificativos, que indicam uma valoração ética ou estética, do presente, tempo próprio da enunciação, das formas modais, que sugerem sentimentos de desejo, de medo, de incerteza. É através de todos esses recursos lingüísticos que percebemos a visão do poeta, que nos faz relevar dois aspectos importantes d’Os Lusíadas: os momentos de transbordamento lírico e a postura reflexiva, que evidencia o caráter didático-moralizante do poema.
          O ponto de vista do eu poemático pode ser percebido ao longo de toda a obra, mas manifesta-se mais especificamente no Exórdio e nos Epifonemas. O Exórdio é composto de três partes: Proposição, Invocação e Dedicatória. Na Proposição, que ocupa as três estrofes iniciais, o poeta anuncia o assunto que irá cantar: a viagem marítima de Vasco da Gama de Lisboa à Índia e a história gloriosa da nação portuguesa:

“As armas e as barões assinalados
Que, da ocidental praia Lusitana,
.........................................................
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
.........................................................
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
.........................................................
Cessem do sábio grego e do troiano
........................................................
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
........................................................”

          Para poder expressar em versos acontecimentos tão importantes, o poeta sente a necessidade da proteção divina. Daí a Invocação às ninfas do rio Tejo: se, até então, Camões tinha composto apenas pequenos poemas líricos, “em verso humilde” e usado a “agreste avena”, agora, na passagem para a poesia épica, ele precisa de um “som alto e sublimado”, produzido por uma “tuba canora e belicosa”:

“E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
........................................................................
Dai,me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
........................................................................
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda
........................................................................”

          Observamos que essa necessidade de invocar a proteção divina é sentida pelo poeta não só no Exórdio do poema, mas toda a vez que se inicia a narração de um assunto importante. Assim, a Invocação se repete no começo do canto III, desta vez o poeta dirigindo-se a Calíope, a musa protetora da poesia épica, antes de Vasco da Gama iniciar a narração da história de Portugal, atendendo ao pedido do rei de Melinde; no fim do -canto VII, antes de Paulo da Gama explicar ao Catual de Calicute o sentido das figuras desenhadas nos painéis das bandeiras portuguesas; nas estâncias 8 e 9 do canto X, quando a Ninfa da Ilha de Vênus profetiza as futuras glórias de Portugal.
          A terceira parte do Exórdio, a Dedicatória, estende-se da estância 6 a 18. Camões dedica o poema a D. Sebastião, rei de Portugal na época da publicação d’Os Lusíadas, exaltando suas virtudes políticas, militares e cristãs:

“E vós, ò bem nascida segurança
Da lusitana antiga liberdade,
...........................................................
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
.............................................................
Vereis amor da pátria, não movido
De prêmio vil, mas alto e quase eterno
.............................................................”

          Mais do que no Exórdio, a voz do eu poemático faz-se presente de uma forma marcante nos epifonemas, figuras retóricas pelas quais, em tom exclamativo, Camões tece suas reflexões sobre os acontecimentos que acaba de narrar. Encontramo-los, quase sempre, no fim de cada canto, exprimindo o sentido de uma seqüência narrativa, postos como conclusões da matéria tratada. Assim, por exemplo, o canto I, após a descrição da perfídia de Baco e dos mouros, encerra-se com a reflexão sobre a insegurança humana:

“...........................................................
Oh! Grandes e gravíssimos perigos,
Oh! Caminho da vida nunca certo.
Que, aonde a gente põe sua esperança,
Tenha a vida tão pouca segurança!

No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?”

          No canto II (30-32), após a intervenção milagrosa de Vênus que salva a armada portuguesa, o poeta reflete sobre a necessidade da ajuda divina; no canto III (119), antes da descrição lírica do episódio de Inês de Castro, Camões apostrofa o Amor, refletindo sobre sua força poderosa; no canto IV, o episódio do Velho do Restelo pode ser considerado um longo epifonema sobre os perigos das viagens marítimas; o canto V acaba com as ponderações do poeta sobre a importância de cultivar a poesia épica; as estrofes finais do canto VI são constituídas por considerações sobre o verdadeiro valor da glória; no canto VII temos duas importantes intervenções do poeta: no início (2-15), onde Camões lança uma severa invectiva contra os povos da Europa que não seguem o exemplo português na luta contra os infiéis, e no fim (77-87), onde o poeta se queixa de seus infortúnios e da ingratidão de seus conterrâneos; o canto VIII se encerra com a reflexão sobre a onipotência do dinheiro; no fim do canto IX Camões considera que qualquer recompensa deve ser merecida; as últimas doze estrofes do poema contêm a repetição de várias reflexões já feitas nos cantos anteriores, sintetizando os conteúdos colocados pelo poeta em sua obra.
          Todas essas reflexões, expressas artisticamente pelo uso dos epifonemas, acusam a intervenção direta do poeta na obra. Camões filtra os acontecimentos históricos, míticos e lendários pelo crivo de sua consciência reflexiva e analisa os fatos à luz da realidade, julgando os homens de sua época e apresentando seu ponto de vista sobre política, religião, poética, costumes. Daí o aspecto educativo e moralizante, característica principal da épica camoniana.

II. 1.2 - O ponto de vista do narrador onisciente

          Ao lado da voz do eu poemático, que se expressa em primeira pessoa, devemos salientar a função do narrador geral do poema, que faz o relato dos acontecimentos usando a terceira pessoa do singular. Esta focalização se distingue da primeira por apresentar-se como objetiva: o narrador é um ser onisciente e onipresente, que sabe tudo a respeito de todos. Colocado numa posição privilegiada, “por detrás” das personagens humanas e divinas, ele descreve fatos, idéias, sentimentos, que ocorrem na terra e no mar, no céu e no inferno, no passado e no presente. Esta focalização atua na parte maior do poema épico, que chamamos de Narração. N’Os Lusíadas, começa a partir da estância 19 do canto I:

          “Já no largo Oceano navegavam.”...

e percorre o poema todo, volta e meia interrompida pela mudança do foco narrativo, devido à intervenção do poeta ou às “falas” das personagens. Quem diz “navegavam” não é o Camões visto como eu poemático, mas o Camões conhecedor da história, das lendas e dos mitos de Portugal e do mundo antigo. Por esta perspectiva, Camões fala não em nome próprio, mas em nome das fontes históricas (João de Barros, Castanheda e outros cronistas e historiadores de Portugal e mitológicas (Homero, Virgílio, Ovídio, etc.) d’Os Lusíadas. O uso da terceira pessoa exprime o ponto de vista impessoal, próprio do contador de histórias, com ausência quase total da participação do narrador na narrativa.

II.1.3 - O ponto de vista das personagens-narradoras

          O terceiro tipo de foco narrativo está centrado nas “falas” das personagens. Para quebrar a monotonia do discurso indireto em terceira pessoa, o narrador onisciente, de vez em quando, cede a palavra a alguma personagem, que assume o papel de narrador, contando fatos ou expressando seus sentimentos em primeira pessoa, através do discurso direto. Neste caso, a visão é “com” a personagem: o leitor percebe os acontecimentos relatados “em imagem”, através do ponto de vista da personagem-narradora. Por esta perspectiva, não é o narrador que vê a personagem, mas é a personagem que se mostra ao narrador e lhe impõe sua visão das coisas. O poema de Camões está repleto destas falas, que exprimem pontos de vistas particulares sobre a matéria épica. Fazemos referência apenas a algumas falas mais importantes. No canto I, durante o Concílio dos deuses no Olimpo, são apresentadas as falas de Júpiter, de Baco, de Vênus e de Marte, cada divindade manifestando-se pró ou contra a expedição portuguesa:

          Quando Júpiter alto, assi dizendo,
          Com tom de voz começa grave e horrendo:

          “Eternos moradores do luzente,
          Estelífero Pólo e claro Assento...”

          A descrição do episódio de Inês de Castro, no canto III, evidencia a facilidade com que Camões muda o foco narrativo, no seu poema. Enquanto o narrador onisciente está contando a história da dinastia portuguesa, o poeta muda o tratamento da primeira para a segunda pessoa, antes apostrofando o Amor, depois dirigindo-se diretamente a D. Inês, como se fosse uma pessoa viva, enfim cedendo a palavra à protagonista do episódio e permitindo-lhe expressar seus sentimentos pelo discurso direto:

Tu só, tu, puro amor; com força crua
..............................................................
Estavas, linda Inês, posta em sossego
............................................................
Para o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
............................................................
Para o avó cruel assim dizia:

“Seja nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento
..........................................................
Ò tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha”.

          A fala mais importante do canto IV é o episódio do Velho do Restelo, que critica a expedição marítima portuguesa:

          Mas um velho, de aspecto venerando,
          ...................................................................
          Tais palavras tirou do experto peito:
          "Ò glória de mandar, ó vã cobiça
          Desta vaidade, a quem chamamos Fama!... "

          Grande parte do canto V é dedicada à fala de Adamastor, um dos Gigantes que tiveram a ousadia de querer destronar Júpiter do Olimpo. Vencido pelo Senhor dos deuses, Adamastor, transformado num promontório, o Cabo das Tormentas, reprocha a Vasco da Gama a teimosia dos portugueses em quererem dobrar o Cabo até então desconhecido a outros navegantes e profetiza terríveis desgraças para os atrevidos navegadores:

          E disse: "Ò gente ousada, mais que quantas
          No mundo cometeram grandes coisas ........."

          No canto VI, notável é a fala de Baco, exortando os deuses do Olimpo a punirem a ousadia dos portugueses, pois estão pretendendo acabar com o politeísmo pagão e roubar-lhes as honras que ele goza no Oriente:

          "Vedes, o vosso mar cortando vão,
          Mais do que fez a gente alta de Roma;
          Vedes, o vosso reino devassando,
          Os vossos estatutos vão quebrando.
          ...............................................................
          Que aquelas grandes honras que sabeis
          Que no mundo ganhei, quando venci
          As terras Indianas do Oriente,
          Todas vejo abatidas desta gente".

          No canto VII (60-63), podemos salientar o discurso de Vasco da Gama ao Samorim da Índia, propondo, em nome do rei de Portugal, pacto de amizade e intercâmbio comercial. No VIII, temos a longa fala de Paulo da Gama (2-43), explicando ao Catual de Calicute o sentido das figuras dos painéis. No IX, o único trecho em discurso direto é a exortação de Veloso (69-70), induzindo os companheiros a descobrirem se as ninfas da Ilha de Vênus são seres fantásticos ou reais. No canto final, uma ninfa descreve os futuros feitos portugueses e enumera os sucessivos governadores da Índia (5-7 e 10-73).
          A importância destas falas prende-se a um motivo estilístico, pois interrompem a monotonia da narração em terceira pessoa do discurso indireto, ao mesmo tempo em que, através de monólogos e diálogos, conferem um aspecto de dramaticidade à narrativa épica. Mais importante ainda, a nosso ver, é relevar a necessidade estrutural das intervenções das personagens no plano da enunciação. Ações e sentimentos, que nem o eu poemático nem o narrador onisciente poderiam expressar sem cair na inverossimilhança, são enunciadas através da voz de personagens que falam em nome próprio e apresentam sua visão das coisas. Aduzimos apenas dois exemplos:
a) a onisciência do narrador de terceira pessoa se refere apenas aos fatos passados, até a época da viagem de Vasco da Gama; para Camões poder descrever os acontecimentos futuros, até a época da publicação d’Os Lusíadas, devia recorrer a um ser sobrenatural, dotado de um saber profético: daí a necessidade do recurso à fala da ninfa;
b) o eu poemático, que exalta a expedição portuguesa e a gloriosa história de sua terra, não poderia, ao mesmo tempo, pôr em dúvida a utilidade da viagem do Gama e criticar as mazelas dos portugueses: isso o poeta faz através da voz do Velho do Restelo, expressão artística do partido conservador de Portugal, contrário às viagens marítimas.
Concluindo esta breve análise do plano da enunciação, podemos afirmar que a plurifocalização d’Os Lusíadas salienta seu aspecto “polifônico”. O poema de Camões apresenta várias “vozes”, que às vezes se entrelaçam, outras vezes se contradizem, cada qual expressando uma faceta do espírito do poeta. Estamos perante um “eu dividido”, que ora idealiza a viagem do Gama, ora a julga à luz da história; ora enaltece os heróis e os reis de Portugal, ora denuncia os graves defeitos da gente de sua terra; ora relata a intervenção dos deuses pagãos nos acontecimentos portugueses, ora os considera divindades falsas e mentirosas.
Essas (e outras) contradições seriam inexplicáveis sem o recurso estilístico da pluralidade dos sujeitos da enunciação. Considerado sob este aspecto, o poema camoniano apresenta traços de semelhança com a produção poética de outro grande expoente da literatura portuguesa, Fernando Pessoa, que, através do processo da criação heterônima, desdobra o próprio eu em várias personalidades humanas e poéticas. Os Lusíadas, portanto, poderia ser submetido ao mesmo tipo de análise que M. Bakhtine utilizou para a exegese da obra de Dostoievski, em que ressalta a oposição dialética existente dentro do ser humano e o ilogismo e o paradoxismo das situações. As contradições encontráveis no poema camoniano constituem, a nosso ver, seu aspecto mais moderno, pois denunciam as perplexidades de Camões, que quebram a estrutura fechada e o sentido monológico da épica clássica.

II.2 - Plano da enunciado

Se o plano da enunciação d’Os Lusíadas, como acabamos de ver, diz respeito ao “discurso” do poema, ao modo pelo qual o narrador está presente na narrativa, o plano do enunciado se relaciona com a “história”, o modo pelo qual o conjunto dos fatos são narrados. Camões propõe-se cantar a história dos fatos gloriosos de Portugal, dando particular ênfase à expedição portuguesa, chefiada por Vasco da Gama, em busca do caminho marítimo para a Índia. A matéria-objeto da épica camoniana é a “fábula” do povo português, desde seu fundador mítico, Luso, filho de Baco, passando pelo seu fundador histórico, D. Afonso Henriques, e chegando até os feitos de D. Sebastião, rei de Portugal na época da publicação d’Os Lusíadas.
Mas este assunto poemático não é narrado na sua ordem cronológica, não havendo coincidência entre “fábula” e “trama”. Camões, seguindo o exemplo de Homero e de Virgílio, começa seu poema in media res: a trama inicia pelo meio da fábula, quer em relação à viagem de Vasco da Gama, quer em relação à história de Portugal. O poema começa quando a armada portuguesa já se encontra perto de Moçambique, na costa africana. O inicio da trama tem, portanto, como elemento temporal de referência, o ano da expedição do Gama e como elemento espacial a África, quase a metade da distância entre Portugal e a Índia. Como os portugueses lá chegaram e por que iniciaram a longa viagem é contado através da narração retrospectiva (flash back) do capitão Vasco da Gama ao rei de Melinde. Mas o herói português não conta apenas o início da viagem, recuando a narração até o inicio da fundação da nacionalidade lusitana e sintetizando em dois cantos (III e IV) mais de três séculos de história de Portugal.
Após essa interrupção, a narração continua linearmente, descrevendo as peripécias da viagem da armada portuguesa de Melinde até a Índia. Aí se dá outro flash back, quando Paulo da Gama, irmão do capitão-mor, explica ao Catual de Calicute o significado das figuras desenhadas nos painéis das bandeiras. Após a narração das transações comerciais e do pacto de amizade entre os dois povos, Camões descreve a viagem de volta da armada para Portugal e a parada intermediária na utópica ilha dos Amores.
Mas estava no plano d’Os Lusíadas cantar também acontecimentos portugueses posteriores à viagem do Gama. Para tanto, era necessário uma narração prospectiva, através de uma visão profética: é o que faz a ninfa da Ilha de Vênus, mostrando aos portugueses de Vasco da Gama as futuras glórias de seu país na Europa, na África e na Ásia, que ocupam o lapso de tempo que decorre da expedição do Gama até a publicação da obra. Em resumo, n’Os Lusíadas encontramos a narração entrelaçada de três grupos de acontecimentos mítico-históricos, de épocas diferentes:

a) Presente da enunciação = época da publicação do poema (1572), que corresponde ao futuro do enunciado;
b) Presente do enunciado = época da expedição do Gama (14981), que corresponde ao passado da enunciação;
c) Passado do enunciado = período de tempo que vai desde a fundação da nacionalidade portuguesa (meados do século XII até a viagem do Gama.

Cabe perguntar sobre o motivo dessa sobreposição de planos históricos, que resulta num embaralhamento temporal. A primeira resposta é que, seja o olhar retrospectivo, seja o olhar prospectivo, se encontram nos modelos épicos preexistentes a Camões, objetos de imitação. A trama da Odisséia inicia quando o herói já está na ilha Ogígia, preso pelo amor da ninfa Calipso: o que aconteceu antes, desde a partida de Tróia, será contado pelo próprio Ulisses ao rei Alcino, na ilha dos Feácios, e o que acontecerá depois, quando chegar em Ítaca, é narrado profeticamente pelo adivinho Tirésias, no Reino dos Mortos. A imitação da Eneida, sob este aspecto, é ainda mais evidente: além do flash back, dado pelo início da trama quando Enéias já se encontra perto de Cartago, contando depois à rainha Dido suas aventuras desde a destruição de Tróia, temos a narração prospectiva das futuras glórias de Roma, feita pela alma do pai Anquises, nos Campos Elíseos. Também aqui o presente da enunciação é visto como futuro do enunciado.
A segunda resposta é que a inversão temporal, além de uma característica, é uma exigência imprescindível do poema épico. Se se excluir a Ilíada, que é o canto de apenas um episódio da guerra de Tróia (a ira de Aquiles), os outros poemas épicos, que narram fatos acontecidos durante um lapso de tempo bastante longo, devem lançar mão, necessariamente, do recurso estilístico da retrospecção e da prospecção, sob pena de a narração reduzir-se a uma história monótona e cansativa. Iniciar a narrativa pelo meio da história possibilita ao poeta escolher o acontecimento principal, dar-lhe uma maior ênfase, mostrando-o como presente do enun-
ciado, e, a partir deste acontecimento, delimitar o passado e o futuro. Este recurso estilístico confere ao relato um sabor de dramaticidade, fazendo com que os fatos passados sejam apresentados como presentes, pois descritos no ato de seu acontecer.
Damos, a seguir, um resumo da trama do poema camoniano:

Canto I: Exórdio - Concilio dos deuses - Desembarque em Moçambique - Chegada a Mombaça.

Após o Exórdio, em que distinguimos a Proposição, a Invocação e a Dedicatória, o poeta inicia a Narração da viagem marítima dos portugueses à Índia, a fábula principal do poema. O início da “trama” apresenta os portugueses já navegando no Oceano Índico, entre a costa africana e a ilha de Madagascar. Enquanto a armada portuguesa navega, os deuses se reúnem no Olimpo para decidirem sobre o cumprimento do Fado, que determinara que o povo lusitano descobrisse o caminho marítimo para a Índia, colonizasse e evangelizasse todo o Levante, conseguindo um império superior ao dos assírios, persas, gregos e romanos. O deus Baco, temendo que as façanhas dos portugueses ofusquem a memória de sua glória e de seu culto na Índia, manifesta-se contrariamente ao sucesso da expedição portuguesa. Vênus interfere a favor dos lusitanos, porque vê neles os continuadores da civilização troiana e romana. Marte também se alia a favor dos portugueses por serem gente valorosa na guerra. Júpiter decide a questão, afirmando que a vontade do Destino deve ser cumprida. Os navios portugueses, entretanto, chegam a Moçambique. O Regedor do lugar, mouro e muçulmano, inspeciona as naus estrangeiras e, percebendo que os navegantes são cristãos, inspirado por Baco, os ataca traiçoeiramente ao desembarcarem. Vasco da Gama e seus companheiros conseguem vencer os africanos, retomam o caminho do mar e chegam nas proximidades de Mombaça, sob a proteção de Vênus, sempre atenta em proteger os portugueses da perfídia de Baco e dos mouros.

Canto II: De Mombaça a Melinde

Vênus e as Nereidas impedem que os portugueses desembarquem em Mombaça, porque Baco tinha preparado outra armadilha. A deusa apresenta queixa a Júpiter por deixar seus protegidos sem a ajuda divina e ignaros da terra que buscam. Júpiter envia Mercúrio para ensinar o caminho ao Gama e preparar uma boa acolhida na próxima etapa da viagem dos portugueses. Estes chegam no vizinho porto, onde são bem acolhidos. O rei de Melinde visita a armada e pede ao capitão Vasco da Gama que lhe fale da história e dos costumes da sua terra de origem e da viagem até agora realizada.

Canto III: Narração da história de Portugal (do deus Luso ao rei D. Ferrando)

Depois de o poeta invocar a musa Calíope, Vasco da Gama inicia a narração, descrevendo a Europa e a localização geográfico de Portugal. Passa, então, a contar a história de sua gente, desde o deus Luso, filho de Baco, o fundador mítico de Portugal, até o reinado de D. Ferrando, filho e sucessor de D. Pedro I. Particular importância é dada ao reinado de D. Afonso Henriques, o fundador histórico da nacionalidade portuguesa: narram-se suas lutas contra Castela e contra os mouros pela conquista e pela defesa das várias províncias que formaram o núcleo do reino português. O reinado de D. Afonso IV também é destacado, especialmente por causa da história do triste amor de D. Pedro e Inês de Castro, uma das passagens mais líricas do poema camoniano.

Canto IV: Continuação da narração da história de Portugal ( De D. Fernando a D. Manuel I )

Com a morte de D. Ferrando, dá-se um pequeno interregno e a independência política de Portugal é posta em perigo. Com efeito, a rainha D. Leonor, considerando a filha Beatriz, casada com o rei de Castela, legítima sucessora ao trono, queria anexar Portugal à Espanha. Mas o filho bastardo de D. Pedro, ajudado pelo herói nacional português, Nuno Álvares, consegue derrotar os espanhóis e os traidores portugueses na batalha de Aljubarrota e assume o trono com o nome de D. João I. Solidificado o reino de Portugal, D. João I dá inicio às expedições militares portuguesas fora da península ibérica, conquistando Ceuta, na costa da África. As conquistas na África são ampliadas por D. Afonso V. Enfim, após o reinado de D. João II, D. Manuel I dá início às viagens e às conquistas portuguesas além do Atlântico. Obedecendo a um sonho profético, o monarca confia a Vasco da Gama a chefia da expedição portuguesa em busca do caminho marítimo para a Índia. Enquanto a armada parte de Belém, o Velho do Restelo impreca contra as viagens marítimas e a cobiça de novas terras, causas do enfraquecimento político, social e moral de Portugal.

Canto V: Narração da viagem de Lisboa a Melinde

Largando do porto de Belém, a esquadra portuguesa passa perto da ilha da Madeira, atravessa as ilhas Canárias, costeia o Cabo Verde e desembarca na ilha de Santiago. De lá, navegando ao longo da costa africana, a armada passa pela ilha de São Tomé, pertencente ao domínio do Congo, território banhado pelo rio
Zaire. Passando a linha do Equador, os navegantes avistam a constelação do Cruzeiro do Sul, até então desconhecida pelos europeus. Vasco descreve dois fenômenos naturais, tidos como milagrosos: o fogo de Santelmo (combustão de óleo no mar) e a Tromba marítima. Após meses de navegação, desembarcam em terra africana e o português Veloso é quase morto pelos negros. Ao ultrapassarem o Cabo das Tormentas (cabo da Boa Esperança), personificado pelo gigante Adamastor, dá-se o diálogo entre o herói e esta figura mítica. Continuando a viagem, passam pelo Ilhéu da Cruz, por Sofala, e se reabastecem numa costa que os portugueses denominam dos “Bons Sinais”, porque é aí que recebem os primeiros informes sobre a Índia. Nesta terra, alguns portugueses são vítimas do escorbuto. A armada retoma o caminho marítimo e chega a Moçambique. Acaba, assim, a narração retrospectiva de Vasco da Gama. As aventuras da viagem de Moçambique a Melinde já foram descritas anteriormente.

Canto VI: De Melinde a Calicute

A armada portuguesa se despede festivamente do rei de Melinde e prossegue a viagem para a Índia. O deus Baco, sempre tomado pela inveja, visita Netuno e lhe pede para punir os audaciosos portugueses. Este ordena a Tritão que reúna os deuses marinhos. O concilio dos deuses do mar decide acolher a queixa de Baco e Éolo é encarregado de soltar os ventos e causar uma forte tempestade para destruir os navios lusos. Enquanto isso está sendo decidido no mundo sobrenatural, a armada navega sossegadamente e os portugueses contam histórias para evitar o sono. É narrada a lenda dos Doze cavalheiros portugueses que foram à Inglaterra. Ao surgir a terrível tempestade, Vasco da Gama suplica à Divina Guarda para que salve os navegantes portugueses. A protetora Vênus vem em seu auxílio, fazendo com que os ventos, aprisionados pelas ninfas, cessem de balançar os navios. Passada a tempestade, a armada chega a Calicute: a missão é cumprida, pois
está descoberto o caminho marítima para a Índia.

Canto VII: Encontro com o Samorim e o Catual

No porto de Calicute, após a descrição da Índia, Vasco da Gama envia o degradado João Martins para contactar o senhor da terra. O mensageiro encontra o mouro Monçaide que visita a nau capitânia e descreve a região do Malabar. O Capitão desembarca e vai visitar o Samorim, o rei daquela região indiana. Enquanto isso o Catual, governador da cidade, visita a armada portuguesa, recebido por Paulo da Gama. O Catual admira a beleza do navio principal e pede que Paulo da Gama lhe explique o sentido das figuras desenhadas nas bandeiras portuguesas.

Canto VIII: Transações comerciais

Paulo da Gama explica o significado das ilustrações: Luso, o fundador mítico de Portugal; Ulisses, o fundador mítico de Lisboa; D. Afonso Henriques, o fundador histórico da nacionalidade portuguesa; Nuno Álvares, o herói nacional de Portugal etc. A descrição das figuras desenhadas nas bandeiras é uma réplica do olhar retrospectivo sobre lendas e histórias de Portugal, que já apareceram na narração de Vasco da Gama ao rei de Melinde. O Catual volta para terra e, subornado pelos muçulmanos indispostos contra os cristãos portugueses por Baco, que apareceu em sonho a um sacerdote maometano, prepara uma armadilha. Tendo sido combinado entre o Gama e o Samorim a troca de mercadorias européias com especiarias indianas, o Catual pede ao Gama que aproxime a armada do porto, com a intenção de destruí-la. O Capitão não cai na cilada e é feito prisioneiro. Mas logo é resgatado ao preço de fazendas européias.

Canto IX: Início da viagem de retorno e parada na Ilha de Vênus

Dois portugueses, encarregados de venderem mercadorias, são detidos pelos indianos, com o propósito de retardar a partida dos lusitanos, esperando reforços para destruírem a armada. Vasco da Gama, avisado pelo mouro Monçaide, em represália, detém como reféns vários mercadores da Índia. O Samorim ordena a troca e os portugueses iniciam a viagem de volta. Vênus resolve premiar o valor e o sacrifício dos portugueses, pedindo ao filho Cupido que a ajude nessa empresa. Os lusos avistam uma ilha maravilhosa, de flora luxuriante e de fauna extraordinária, habitada por ninfas. Desembarcam, perseguem as ninfas e com elas se casam. O herói Vasco da Gama é premiado com o amor da deusa Tétis, titã filha do Céu e da Terra, esposa do Oceano e mãe de todos os rios, personificação da fecundidade da água (não confundir com a outra Tétis, neta da primeira nereida, esposa do mortal Peleu e mãe de Aquiles).

Canto X: Previsão do futuro e regresso à pátria

Tétis e as outras ninfas preparam um banquete para homenagear os navegadores portugueses. Uma ninfa prenuncia as futuras façanhas dos portugueses na Europa, na África e na Ásia, enumerando os futuros governadores da Índia. Tétis mostra ao Gama a Máquina do Mundo e aponta, no Universo em miniatura, os lugares onde o povo lusitano realizará altos feitos. Após uma festiva despedida, a armada portuguesa deixa a Ilha dos Amores e navega tranqüila até Lisboa.

(Salvatore D’Onofrio, in Da Odisséia ao Ulisses –Evolução do gênero narrativo. Livraria Duas Cidades)

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